Bauhaus do Mar

A Bauhaus definiu o design no século XX ao aliar a arte à construção e à indústria. No século XXI, a União Europeia propõe uma nova Bauhaus que dê origem a um movimento de implementação do Green Deal baseado na sustentabilidade e na inclusão. Em resposta a este repto, Portugal propõe uma mobilização continental para o primeiro e principal espaço natural global: o mar.

Porquê o Mar e os Oceanos?

  • Regulam o clima pela absorção de calor e captura de carbono (um terço das emissão do planeta);
  • Acolhem grande parte da população da UE (41% vive em regiões costeiras) constituindo o principal espaço natural e fronteira dos sistemas urbanos;
  • Constituem uma importante fonte de alimento (fornecem 16% da proteína consumida globalmente);
  • Geram emprego e riqueza através dos vários setores da economia azul (atraem 52% das atividades turísticas na Europa);
  • Acolhem soluções globais para captura de carbono (pradarias marinhas, plancton, cetáceos) e grande potencial nas energias renováveis, no transporte sustentável, na alimentação e nos biomateriais e biotecnologias;
  • Enfrentam fortes ameaças de poluição (plásticos) e de degradação dos ecossistemas face às mudanças climáticas (erosão, subida do nível das águas do mar);
  • Representam um significativo legado histórico, cultural e patrimonial da Europa;
  • Proporcionam um espaço de intervenção futuro onde podemos evitar os erros do passado.

A Bauhaus do mar, como marhaus (literalmente o mar como a nossa casa) ou baumar (o mar como espaço para a criação e o empreendedorismo de impacto), pretende promover renovadas éticas e estéticas de desenvolvimento regenerador a partir das mais diversas dimensões da nossa relação continuada com o mar.

Concretizada como uma viagem a partir de Portugal, a Bauhaus do mar criará um movimento de design aberto a todas as regiões costeiras e marítimas da Europa.

Âncoras

Reconhecer o ambiente ao cartografar e comunicar fluxos de recursos minerais, biológicos (em particular invisíveis) e humanos (transportes, comunidades e migrações), parametrizando, otimizando e digitalizando dados para gestão e tomada de decisão informadas e sustentáveis;

Reconciliar o mar ao reconhecer os oceanos como um território de continuidade, abrindo as suas diversas dimensões às necessidades estratégicas do projecto europeu da Bauhaus;

Reconectar comunidades aos seus territórios e patrimónios material, ecológico, estético e cultural, suportando a geração e co-criação de ideias inovadoras, orientadas para a cidadania global, as experiências e o empreendedorismo de impacto na economia azul;

Renovar práticas ao envolver os cidadãos na gestão dos recursos locais das regiões costeiras e do mar, promovendo soluções naturais para as alterações climáticas, bem como em intervenções artísticas, experienciais e tecnológicas inovadoras, replicáveis a nível europeu e global.

Em suma, a Bauhaus do mar pretende reconhecer e legitimar as mais diversas formas de saber-fazer já presentes nas comunidades e nos ecossistemas costeiros e marinhos, promovendo, através do design e da criatividade, a sua inovação, atualização e articulação com uma nova geração de políticas públicas orientadas para a cooperação e resolução de problemas transnacionais.

O projecto Bauhaus do mar propõe assim uma narrativa ecocêntrica simultaneamente cosmopolita e enraizada, plural e testemunhal, com evidentes consequências ambientais e económicas, escaláveis a nível europeu e global.

Visão

A criação de uma «cultura Bauhaus do mar» terá de passar por fomentar uma escola de experimentação e empreendedorismo interdisciplinar, que forme uma geração de designers, arquitetos, engenheiros, artistas, gestores e cientistas em redor do design de soluções sustentáveis para as regiões costeiras e o mar. O apoio a projetos em rede deverá promover a articulação de entidades da academia, dos sistemas científicos e culturais, bem como as incubadoras e centros tecnológicos, e orientar para o envolvimento das comunidades em que se inserem, com o objetivo final de criar capacidade para replicar soluções sustentáveis ou regenerativas.

A operacionalização deverá abordar o mar enquanto origem e destino para o design, concretizando-se através das seguintes linhas:

Desenhando e disseminando modelos de sustentabilidade, aplicáveis a escalas locais e globais que estabelecem a continuidade entre os ecossistemas marítimos e terrestres, inclusivos de agentes humanos e não-humanos (e.g. animais e áreas protegidas, mas também praias, dunas e ondas);

Disseminando paradigmas de leitura transfronteiriça, emancipados do mero mapeamento geo-político, contribuindo assim para uma visão intercultural e radicalmente cosmopolita entre povos e culturas contemporâneas e ancestrais, europeias e trans-europeias;

Promovendo formas inovadoras de reconstrução e representação no planeamento e na arquitectura, desde estruturas de proteção costeira a infra-estruturas ambientalmente responsáveis de exploração sustentável de energias renováveis e plataformas offshore para aquacultura incluindo novos bio- e geo-materiais;

Promovendo e viabilizando a experimentação e inovação alimentar, por via de práticas ecológicas de produção e de consumo, alternativas e/ou locais, implementadas através de actividades de disseminação cultural;

Recolhendo, estruturando e disseminando testemunhos, narrativas, saberes e objetos intimamente enraizados na experiência do mar, no passado e no presente; envolvendo neste processo de perspectivação crítica historiadores, antropólogos, sociólogos, designers, artistas, especialistas de media digitais e audiovisuais, coleções e museus.

Constituindo equipas transdisciplinares para antecipação e resolução do impacto da subida dos oceanos nas cidades e nos territórios costeiros, bem como respostas aos crescentes fenómenos meteorológicos extremos;

Constituindo equipas transdisciplinares com a missão de inverter a tendência histórica de utilização dos materiais terrestres intensivos em carbono (e.g. cimento), aliando à promoção dos materiais naturais (e.g como a madeira ou o cânhamo usados nos cordames e velas) e ferramentas do meio aquático no meio terrestre (e.g. algas, medusas, colagénio marinho);

Reposição dos ciclos sedimentares naturais, implementado sistemas de transferência e intervenções inovadoras que promovem a formação de habitats e a regeneração de ecossistemas marítimos, para evitar inundações, erosão e intrusão de água salgada;

Promovendo intercâmbios trans-europeus e circulação de conhecimento litoral-interior através de residências artísticas, usando a rede de museus nacionais e dinamizando os respectivos espaços «abandonados» e/ou exteriores;

Promovendo ações interdisciplinares de aprendizagem, pedagogia e empreendedorismo junto:

  • — da comunidade académica e científica;
  • — de comunidades empreendedoras e tecnológicas;
  • — da população, por uma responsabilidade acrescida na preservação e potenciação dos ecossistemas costeiros e marítimos;
  • — de agentes da cartografia urbana, para um reencontro das cidades costeiras com o seu espaço natural.

Navio Escola

Uma escola no mar, o primeiro espaço natural global. Num navio-escola a viajar pelos mares com uma comunidade de novos criativos e os pavilhões («bandeiras de cortesia») de todos os países, entre as principais cidades costeiras da UE e os seus mais remotos territórios insulares, os lugares da Antiguidade Clássica e o Novo Mundo. Um navio filiado na mesma costa onde se cruzaram as tecnologias de navegação associadas às velas quadradas dos mares do norte e triangulares do sul que antecederam a fundação da comunidade global. Uma escola que, para além da dimensão pedagógica da viagem, explore a inversão da posição do olhar. Um novo olhar sobre a terra e o mar.

Viagem

Ao centrar-se nos territórios costeiros e na escala do mar, a Bauhaus do mar propõe a síntese entre a natureza (humana e mais-que-humana), as tecnologias e as necessidades estratégicas do projeto europeu: compreender como nos podemos relacionar de forma sensível, consciente e equilibrada com o maior bem comum do planeta, determinante para a regulação do clima e a preservação dos ecossistemas e da biodiversidade, bem como para a exploração sustentável dos recursos alimentares, minerais e energéticos do futuro.

A Bauhaus do mar abraça o desafio de aplicar o design a problemas complexos sócio-técnico-ecológicos e mais-que-antropocêntricos de grande impacto nos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e nas prioridades estratégicas da UE. A Bauhaus do mar pretende influenciar o design das interações complexas que acontecem entre agentes humanos e não humanos e cuja expressão em grandes escalas temporais e espaciais só é possível através de tecnologias digitais em rede amplificadas pela inteligência artificial, pela internet das coisas e pela automação.

O design destas interações deverá envolver não só uma nova estética mas acima de tudo uma consciência crítica das suas consequências históricas, contemporâneas e futuras, centrando o design para além dos humanos, como forma de preservar o futuro da humanidade. Assumindo esta consciência ecocêntrica como base da sua proposta projetual, a Bauhaus do mar pretende recentrar o ensino e a prática do design numa visão de futuro e numa ecologia de conhecimento que transcendam qualquer tipo de nostalgia mas também perspectivas eurocêntricas e antropocêntricas, bem como lógicas de desenvolvimento assentes num crescimento económico inexorável e na extracção, privatização de bens e saberes comuns.

A nova Bauhaus resulta da maturidade tecnológica da revolução digital e combina os domínios físico, digital e biológico, influenciando assim a quarta revolução industrial. A Bauhaus do mar recentra o design como disciplina agregadora da conceção ativa e a curadoria de sistemas complexos sócio-técnico-ecológicos que evoluem em torno de problemas e controvérsias do mar que possuem valores, políticas e éticas distintas.

Autoria
Manifesto produzido para lançamento do processo de discussão aberto no âmbito do Grupo de Trabalho Novo Bauhaus Europeu.

Nuno Jardim Nunes
Investigador do ITI/LARSyS, e Professor IST — U. Lisboa

Frederico Duarte
Designer

Heitor Alvelos
Investigador do ID+, e Professor da Faculdade de Belas Artes da U. Porto

Mariana Pestana
Arquitecta

Miguel Figueira
Arquitecto

Conceito e design gráfico
Miguel Figueira, José Albergaria

Website
Maria Adelaide